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O tabu do tabu

Fazer uma reportagem com um ângulo definido e não procurar o outro lado é mau jornalismo. O Público este domingo, com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, estreia a “Série Especial: Racismo em português” com a reportagem “Ser em africano em Cabo Verde é um tabu”. Não porque seja mentira que Cabo Verde, na generalidade, não quer ser África. É verdade. Mas a identidade cabo-verdiana existe e está bem vincada, nas nove ilhas habitadas. A generalização de África, enquanto continente, a uma única cultura (a dita “africanidade”) é a típica visão ocidental. Mas agora os ocidentais querem quebrar o tabu. E caíram no perigo da história única, que Chimamanda Ngozi Adchie explica tão bem. Entramos, portanto, na era do tabu do tabu.

A escritora nigeriana Chimamanda Adchie explica muito bem o perigo da história única. Basta começar a história por onde queremos e não vermos as diferentes perspectivas. “Se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, corremos o risco de um erro crítico”. Tratando-se de um trabalho jornalístico, o caso é ainda pior. Leia-se, por isso, o lead da reportagem do Público: “Cabo Verde não é África, os cabo-verdianos são “pretos especiais” e os mais próximos de Portugal. É o país da mestiçagem, a “prova” da “harmonia racial” do luso-tropicalismo. Durante anos esta foi a narrativa dominante. Ser ou não ser africano ainda continua como ponto de interrogação.

Respeitando os testemunhos ouvidos, fica evidente que há uma posição e um ângulo de abordagem definido, fechado. Todo o trabalho vai no sentido de lhe dar resposta. Ler que a Educação ou a Saúde estão desfasados do país e não ler absolutamente nada sobre os números que contrariam esse argumento é assustador. Isto não é jornalismo. Eu também não vou fazer jornalismo, mas dar a minha opinião. Conheço relativamente bem, julgo que se pode dizer assim, o país. Venho cá há praticamente 20 anos. Tenho grandes amigos cabo-verdianos. Li e leio muito sobre o país. O meu tio-avô teve um papel preponderante na Educação em Cabo Verde, aquando das “duas independências”.

A democracia, a Educação e a Saúde são elementos que não estão desfasados do país. Não é porque Cabo Verde não segue a política dos países africanos que isso se traduz em racismo. Ter identidade própria não significa que a cor da pele distinga as pessoas. Neste arquipélago não distingue. É essa mestiçagem, de séculos, com uma cultura muito própria que cria a identidade deste país. E isso não é sinónimo de recusa total da africanidade mas da criação de um país próprio.

A reportagem seria muito mais rica que se contasse a História de Cabo Verde pós-independência, até 1990 literalmente debaixo do jugo da Guiné-Bissau, fruto da política do partido único. A reportagem seria muito mais rica se contasse a história da diáspora cabo-verdiana, que muito contribui para a mestiçagem e para uma identidade própria. A reportagem seria muito mais rica se contasse o papel dos holandeses nas ilhas e, actualmente, dos italianos. A reportagem seria muito mais rica se sequer falasse na questão dolorosa, bem sei, dos retornados – é que não há de Cabo Verde a não ser uns pides, as autoridades fascistas e pouco mais. A reportagem seria muito mais rica se fosse a cada canto perguntar quem é Amílcar Cabral, que todos sabem ser o pai do país. A reportagem seria muito mais rica se contasse os problemas que Cabo Verde enfrenta com o narcotráfico da Guiné-Bissau, Guiné-Conakri e Senegal. A reportagem seria muito mais rica se mostrasse a capacidade da Saúde no país (eu estava em Cabo Verde quando o Ébola ameaçou África. Cabo Verde foi o único país capaz de activar o protocolo de segurança em menos de 8 horas). A reportagem seria muito mais rica se explicasse os níveis de literacia, tão elevados para África, e motivo de natural orgulho. A reportagem seria muito mais rica se contasse a evolução que permitiu níveis de esperança de vida tão elevados num país onde nada há no chão. A reportagem seria muito mais rica se explicasse que nunca existiram etnias em Cabo Verde, um dos elementos base da africanidade.

A reportagem seria muito mais rica se não tivesse vindo à procura de algo que assumiu como verdadeiro mas se procurasse perceber a realidade do país. A começar pela sua História, que é diferente da maior parte dos países africanos. A começar pelos níveis de democracia, educação e saúde (adequados e nada desfasados. Basta entrar numa escola, numa universidade, num hospital ou numa farmácia), e mesmo de corrupção e criminalidade (baixos), que batem os índices de qualquer país com as mesmas condições de vida ou até melhores.

Cabo Verde tem muitos defeitos. Todos os países têm. Todos os povos têm. Mas tem duas coisas que poucos povos têm: memória e identidade. É claro que, em democracia há espaço, para todas as diferenças. E claro que há movimentos africanistas. Poucos, mas há. Agora falar de racismo em Cabo Verde implicaria regressar a 1460 e depois acelerar o passo para o regime salazarista e para os 15 anos de domínio da Guiné. Racismo não é não assumir, à força, uma cultura que não é a sua. Claro que as culturas e as identidades são dinâmicas, e estão em permanente mutação. Mas acusar de racismo, o sistema típico do opressor, um país que foi oprimido por outros dois parece totalmente ilógico. Tão irracional que custa a acreditar que foi publicado no jornal Público.

Unidade, Trabalho e Progresso são o lema de Cabo Verde. Quem vê racismo com base na cor da pele nesta terra, vê só o que quer ver e não a realidade. Quem não entende a recusa da africanidade por oposição a uma identidade de unidade, não entende a realidade deste país. A reportagem ficaria muito mais rica se o comandante Pedro Pires tivesse sido entrevistado. Ou qualquer outro/a guerrilheiro/a. Porque Cabo Verde não teve guerra mas fez a guerra na Guiné. E teve no país uma intervenção muito forte por parte da população. Quem quer continuar a fingir que Cabo Verde não teve um papel importante na luta pela independência das ex-colónias portuguesas, não sabe nada da História do país.

Escamotear a verdade em torno de chavões que chocam não é jornalismo. Lamento muito, Público. Lamento mesmo muito. E estou ansiosa por ler as restantes reportagens da série. Deduzo que o ângulo de abordagem seja o mesmo.

[A propósito ou a despropósito: é a minha estreia no Aventar. E escrevo precisamente de Cabo Verde]

 

[Post inicialmente publicado no blog Aventar]


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