CIBERESFERA

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Ideias sobre a sociabilidade na rede (e em rede)

Em Outubro respondi a uma entrevista sobre a sociabilidade no ciberespaço. Publico agora no blog três das perguntas e respectivas respostas.

> Como avalia a interação das pessoas com a internet? Existe realmente uma relação de dependência do ser humano para com o ciberespaço? Se sim, como se dá essa dependência?
Julgo que a possível dependência está directamente relacionada com o tipo de interacção e experiência que o indivíduo tem com a rede. O tipo de dependência depende exactamente disso. Existe dependência que todos reconhecem na utilização de jogos sociais como o Farmville mas também de aplicações de Comunicação Mediada por Computador como o Messenger, por exemplo. Por outro lado, a grande dependência não é muitas vezes interpretada como isso mesmo e está directamente relacionada com as ideias de mobilidade/portabilidade, imediatismo/tempo real e interactividade. Na minha opinião, a dependência dissimulada existe na utilização permanente de dispositivos que permitem aceder à Internet em qualquer lugar. Interagir e procurar informação são os pontos centrais do indivíduo na utilização da rede, a dependência começa a ser evidente quando interfere de forma preocupante na vida da pessoa – procura de informação sobre saúde, por exemplo, para obter diagnóstico sem consultar médico. No entanto, existe uma dependência que julgo não ser preocupante a esse nível mas que é formadora e pode claramente ser deformadora: as pessoas já não vão à rede, elas vivem em rede; isso pode alterar a vida da pessoa de uma forma substancialmente vazia. A actualização permanente do status do Facebook ou a preocupação excessiva em publicar tudo o que se passa no Twitter são um exemplo de experiências que podem ser vazias de conteúdo e repletas de transtornos ao nível da forma. Por outro lado, esta dependência da velocidade não tem de ser necessariamente um mal. Pelo menos um mal maior. Porque o acesso à informação passa pela rede. Disso julgo que já ninguém duvida e a mudança está a fazer-se nesse sentido. Nesta fase há excessos. A massificação de cada um dos meios anteriores já havia mostrado que assim é. A fase das dependências negativas em termos sociais só pode ser medida numa abordagem mais consensual depois do período dourado da Web 2.0.


> Concorda com a ideia de que hoje as pessoas tem acesso a diversas informações diariamente, mas não param para refletir sobre a maioria delas?

Sim e não. A Internet é uma imensa teia e é muito fácil que os percursos sejam enviesados logo no primeiro link. Sem dúvida. No entanto, a falta de reflexão sobre o mundo e a relação com este não é sinónimo de Internet. Vem da cultura de massas e dos meios de comunicação de massas. Não pelo excesso de informação mas antes pela forma da mensagem. No caso da Internet acredito que influência existe mais ao nível da rapidez, mas a própria mensagem pode também enviesar o processo de comunicação e de reflexão. Tudo se centra numa única questão, que se agravou significativamente com a Internet: a necessidade de aprender a lidar com os media. É que o conceito de media foi completamente alterado com a rede: um indivíduo transformou-se num médium. É a era de EMEREC: o receptor é simultaneamente emissor. E é preciso ensinar as pessoas a lidar com isso. E, já agora, os meios de comunicação profissionais também.

> Como acha que o dinamismo trazido pela internet e a avalanche diária de informações está moldando a geração de jovens? Esse fator torna essa geração diferente das outras em relação a maneira de pensar e interagir com o mundo?
Actualmente, no ciberespaço convivem imigrantes digitais com nativos digitais. No mundo offline convivem imigrantes digitais com nativos digitais, mas também com analfabetos digitais e ainda analfabetos digitais funcionais (aqueles que têm acesso mas não sabem utilizar a tecnologia). A diferenciação entre gerações, em termos de faixas etárias, varia por país mas julgo que é evidente que os nativos digitais têm um relacionamento com o mundo diferente. Cresceram com acesso à tecnologia e não concebem a sua interacção com o mundo sem acesso à rede. Essa forma de estar não tem a ver com uma gestão eficaz das informações ou do próprio dinamismo. Pode existir ou não. Mas é uma evidência que existe o chamado “generation gap”.  Não tem a ver só com a educação e a formação. A forma como percepcionamos o mundo, os outros e nós próprios está directamente relacionada com a Tecnologia. As consequências dessa mudança de pensamento ainda não são visíveis. Julgo que só o serão quando a primeira geração de nativos digitais chegar ao poder nas sociedades info-incluídas. As notícias que vamos tendo são preocupantes, como o cyberbulling. Mas estou piamente convencida que não são ainda suficientes para um julgamento correcto. A adolescência também é digital, agora. O problema é que o digital é global e as consequências são tremendas e, pior ainda, o efeito de imitação e bola de neve é gigantesco.


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