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5º SOPCOM – notas

Terminou o 5º SOPCOM e, por isso mesmo, é tempo de fazer uma breve reflexão. O congresso foi possivelmente o maior já organizado pela Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, com um número de comunicações impressionante: 400. As sessões temáticas foram também ampliadas, sendo que algumas nasceram do desdobramento de temas nos seus vários sub-campos. As sessões plenárias foram muito interessantes e, essencialmente, bem conduzidas. A organização por parte da UMinho foi irrepreensível, desde o acompanhamento aos conferencistas ao material disponibilizado. A apontar apenas a “falha” dos congressos da SOPCOM: tantas mesas a decorrerem ao mesmo tempo fazem-me sempre ficar com a ideia de que ficou muito por ver…

Algumas notas deste congresso

– A sessão plenária 1 centrou-se um pouco no universo do audiovisual, permitindo discutir de forma interessante a participação dos cidadãos neste registo. Uma conclusão salientada pelo Prof. Paquete de Oliveira, provedor do telespectador, e por Victoria Camps, do Conselho do Audiovisual da Catalunha, é a de que os cidadãos procuram intervir pouco e desconhecem os mecanismos de participação. Ainda que grupos organizados de cidadãos tenham plena consciência de como usufruir da plenitude dos seus direitos. Por outro lado, ficou a ideia de que a cidadania resume o acesso à comunicação de todos os cidadãos. Foi ainda sublinhado que comunicação e cidadania são dois conceitos que surgem numa esfera simultânea. Margarita Ledo, presidente da LUSOCOM, deixou propostas de para os investigadores, sublinhando que a relação entre cidadania e comunicação «é uma questão constitutiva da sociedade do conhecimento».

– Os dois painéis da sessão temática Comunicação Multimédia e Jogos Electrónicos, que decorreram na tarde de 6 de Setembro, permitem concluir que esta nova mesa faz todo o sentido nos congressos da SOPCOM. Foram apresentados vários estudos e linhas de investigação interessantes, nomeadamente:
a). Ana Torres e Nelson Zagalo apresentaram um estudo sobre os videojogos como um novo meio de entretenimento para idosos, explorando as potencialidades de utilizar estes dispositivos como actividade de ocupação do tempo.
b). “Criticismo Ludológico: Simulação Ergódica vs Ficção Narrativa” foi o título da comunicação de Luís Filipe Teixeira, estabelecendo uma diferença entre os conceitos de “jogabilidade ergódica” e “ficção científica” a partir das noções de simulação e representação. Imersão, simulação, representação e narratividade são as palavras-chave deste trabalho, cuja publicação aguardo com muito interesse.
c). Rui Gaio trouxe uma proposta diferente e interessante: uma máquina para correr e jogar. Mas será que a imersão física tem as mesmas características que a virtual?
d). Luís Pato, da ESEC, apresentou um trabalho sobre o buzzword do momento: Crossmedia. “O telemóvel: será o telecomando que todos têm?” é o título da comunicação, que se centrou na discussão da produção de conteúdos para telemóveis. O investigador equacionou algumas hipóteses para o futuro do mercado audiovisual, nomeadamente a questão do acesso e das infra-estruturas.
e). Paulo Frias, docente da UP que regista no seu blog notas interessantes sobre o Second Life, apresentou algumas ideias sobre “Comunicação e apropriação do espaço em ambientes sociais online”, centrando-se em Turkle e exemplificando com o universo do SL.

– Este 5º SOPCOM trouxe também outra inovação interessante: a introdução de simpósios. Assisti ao de “Comunicação, Cultura e Tecnologia” e destaco uma comunicação que me interessou muito pelo tema e abordagem: “Comunidades de prática, Web 2.0 e Cidadania”, de Patrícia Dias da Silva da UL. A investigadora partiu da ideia de “centro gravitacional” da definição de Tim O’Reilly para web 2.0, para trabalhar algumas posições teóricas sobre o tema e deixar uma questão em aberto: o modelo cívico pode ser como a ideia de open source?

– A última sessão plenária do congresso contou com a presença de Francisco Sierra, professor da Universidade de Sevilha, Sónia Virgínia Moreia, directora de relações internacionais da INTERCOM, e Rosental Calman Alves, professor da Universidade do Texas. Uma ideia transversal aos três convidados é a de que a cidadania não é um problema político mas antes cívico. Destaco a comunicação do Prof. Rosental Alves, que se assumiu como habitualmente como um “revolucionista”, apresentando ideias que considero muito interessantes. O docente da Universidade do Texas falou do impacto da revolução digital no jornalismo e no ensino do jornalismo, sublinhando que é crucial compreender que as noções de poder e controlo se deslocaram: a audiência é agora activa e participativa, “vivendo” em ambientes de “super abundância” de informação. O Professor defendeu que é imperativo que os meios de comunicação de massas de adaptem aos novos paradigmas comunicativos, sob pena de se assistir não a uma mediamorfose, mas antes a um “mediacídio”. Convergência, multimédia e multi-plataformas são as palavras-chave do jornalismo actual, referiu Rosental Alves, pelo que o ensino do jornalismo tem de se centrar nestas ideias e conciliá-las com os valores essenciais da profissão. Ao mesmo tempo, é importante que a escola se ligue mais à indústria e aposte na investigação. Defendendo de que as mudanças estão a acontecer «de baixo para cima», o docente afirmou que «o jornalismo deixou de ser monopólio dos jornalistas». Na sua opinião, «o jornalismo está a mudar do estilo sermão da era industrial para o estilo conversação da era digital», muito devido ao fenómeno do crowdsourcing – canais de participação da cidadania no jornalismo (a ideia de user generation content). Assim, importa discutir premissas relevantes como a questão da mediação e o poder da fonte. E porque agora os indivíduos têm a capacidade de gerar audiências próprias, Rosental Alves alerta que é impreterível compreender que estruturalmente o negócio dos media está a modificar-se, assim como aceitar que os estudantes de jornalismo dos dias de hoje são “nativos digitais” que precisam de ser orientados para saberem lidar com as repercussões dos self media nos novos media. De certa forma, como defendi também na minha comunicação, é urgente compreendermos um novo fenómeno: a ideia de que a transposição já não se faz só do real para o virtual.


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