CIBERESFERA
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Facebook: a extensão do indivíduo num universo de códigos reinventados

A propósito da reportagem que fez a capa da Notícias Maganize da semana passada, publico as minhas respostas a três questões que me foram endereçadas sobre o Facebook.

Como se explica que o Facebook tenha este impacto estrondoso (seja na maneira de as pessoas se relacionarem, no marketing que as empresas fazem, na despreocupação com a privacidade individual de cada um), ao ponto de ter sido o site mais visto em 2010 nos EUA e de tomar cada vez mais tempo às rotinas diárias dos utilizadores?

Num primeiro momento, o grande impacto do Facebook talvez possa ser explicado com a facilidade e simplicidade de utilização da interface e com os dispositivos móveis que permitem um acesso quase permanente à rede. A massificação da Internet também contribui (e de que maneira) para este efeito. Mas talvez a questão central esteja nas funcionalidades (simples e sociais) que o Facebook disponibiliza. Tudo naquela rede social é orientado para uma certa dependência, seja esta individual ou grupal.
Na minha opinião, o online tornou-se numa extensão do indivíduo. Tal como o telemóvel. Trata-se de criar e manter uma identidade, um status. Ainda que inconscientemente. Por outro lado, há também nessa extensão da vida do indivíduo uma nova noção: finalmente toda a gente assumiu, como Pierre Lévy sempre defendeu, que o virtual existe e produz efeitos. E esses efeitos são cada vez mais visíveis na vida de cada pessoa com acesso à Internet. Com maior ou menor dimensão, esses efeitos estão lá. Logo, esta extensão da vida não existe como um jogo. Há a interacção directa com os outros num ponto mas também a indirecta (talvez bem mais importante) produzida a partir do conteúdo e da relação com o meio. É isso que define a identidade online de cada um: se as pessoas fizerem like ou share do meu conteúdo isso traduz uma reputação (associada depois a credibilidade, notoriedade e por aí fora) bem diferente do que se não fizerem; da mesma maneira, um indivíduo que tem mais amigos do que outro pensa que tem também mais influência (o que já não é verdade, mas para o utilizador comum é). A tendência é para que os avatares enquanto representação virtual se diluam numa reprodução real de cada utilizador. E o grande “culpado” chama-se Facebook que parece ter transformado as ligações online.

- É saudável, isto? Quais são, no seu entender, os principais aspectos positivos e negativos da crescente utilização do Facebook?

A presença das redes sociais e da Internet na vida de pessoas em sociedades info-incluídas é uma inevitabilidade. Esta é a nova revolução que vem a acontecer há algum tempo e que se massificou com a Web 2.0. O homem sempre viveu em rede social, mas sem noção. Com a Internet, este conceito é largamente ampliado. E essa questão é que é de grande importância. Não acredito que, genericamente, se possam definir vantagens e desvantagens para além das habituais do senso comum. Estou convicta que para cada indivíduo há bónus e ónus.  Por outro lado, em termos globais, estou convencida que o mundo mudou: há pessoas info-incluídas e os outros. A frase pode parecer profundamente elitista mas, em termos práticos, é esta a realidade. Sempre foi assim mas agora o fosso é abismal. Da mesma maneira, a presença intensa da Internet na vida de alguns dos info-incluídos distancia-os dos restantes info-incluídos. Na medida em que a rede passa a ser uma extensão da sua vida. E, neste sentido, a vida muda. Inevitavelmente. O que é que muda na vida de alguém que actualiza quase de hora a hora o seu status no Facebook? Muda tudo: a forma como se relaciona com os outros, a forma como vê o mundo e até a si próprio. Podem por isso as redes ser filtros da vida “real”? Claro, como tudo. Mas talvez possam ser também filtros para a vida “real”, o que inevitavelmente implica perguntar: e isso produz efeitos? Sim, o virtual existe e produz efeitos. Esse é que pode ser o bónus ou, muitas vezes, o ónus da presença intensa da Internet e das redes sociais na vida das pessoas.

- Quando se fala de relacionamento humano, o que é realmente importante? E como é que o Facebook potencia ou, pelo contrário, descaracteriza essa(s) vertente(s)?

O ciberespaço não implica códigos inteiramente novos mas uma reformulação dos já existentes. É com base nesses códigos reformulados que considero que existe um novo tipo de sociabilidade, já que se distingue na essência da tradicional desde logo por questões associadas ao tempo e espaço mas também ao nível dos processos sociais e de comunicação. Com o ciberespaço estamos perante novas práticas sociais que se materializam em objectos sociais como o botão “Like”. Estou a referir-me a processos tão simples como um “retweet” (no Twitter) ou um “share” (no Facebook) que, na verdade, traduzem um novo tipo de prática social…
Existem claramente novas práticas sociais e, consequentemente, novas relações. Existe relacionamento humano na Internet mas não é possível transpôr os conceitos que tradicionalmente aplicamos no mundo offline para o online. Desde logo pela questão de não existir contacto físico ou visual e pela não presença. Geralmente, no mundo online a ausência de presença é substituída pelo sentimento de pertença a um grupo através de sistemas de construção social partilhada – o que acaba por conferir identidade a esse grupo e aos indíviduos que fazem parte dele.
Às tradicionais vantagens da abolição de fronteiras e de acesso ao conhecimento global contrapõem-se questões como o anonimato atrás de um ecrã (seja de um computador ou de um smartphone) e a literacial digital. O relacionamento entre os utilizadores estabelece-se algures dentro deste contexto complexo mas também fora dele. Os relacionamentos online, muitas vezes, ultrapassam o cenário da Internet. Seja porque os intervenientes já se conheciam previamente ou porque decidem conhecer-se pessoalmente.
Não considero que o Facebook descaracterize essa vertente mas antes que a transforma. Se Internet alterou os relacionamentos humanos mas o fenómeno do Facebook veio reformular as ligações entre as pessoas. Uma certa despreocupação com a privacidade e a necessidade de se transformar em ser social parecem ser hoje as características dos utilizadores comuns. Todos querem estar ligados a todos: amigos, colegas de trabalhos, celebridades. E todos têm algo para partilhar e aguardam os comentários e os “likes” da sua rede. Os números são impressionantes: estima-se que a cada 20 minutos sejam publicados 1,851,000 status updates, feitos 7,657,000 cliques no botão “like” e escritos 10,208,000 comentários…
A forma como percepcionamos o mundo, os outros e nós próprios está directamente relacionada com a Tecnologia. As consequências dessa mudança de pensamento ainda não são visíveis. Julgo que só o serão quando a primeira geração de nativos digitais chegar ao poder nas sociedades info-incluídas.




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